a morte prematura da Hipermodernidade
Delaine Ramos
Especial para o JB
Que ciência e arte sempre mantiveram uma relação intrínseca – quase nunca assumida perante os tabloides – não é novo. Aliás, novo é um conceito pra lá de velho e isso também já não é segredo faz tempo. Que o diga o artista multimídia multitarefa multifuncional carioca Hendrik Bergen (calma: eu explico). Cria de um comerciante espanhol ranzinza com uma atriz de teatro portuguesa lindíssima, Hendrik decidiu homenagear através de pseudônimo o fascínio de seu avô por cerveja alemã (!). Melhor não perguntar.
Acontece que Bergen, do alto de seu descompromisso brejeiro e na contramão do hype urgentemente formado em redor de sua figura controversa e enigmática, é um gênio. Sua técnica tem sido celebrada como “a vanguarda avessa à vanguarda de toda vanguarda” – pelo menos, até o momento, que promete se estender indeterminadamente. Sua arte meritória extrapola a iconografia tornando extrínseca a relação sugerida no início deste artigo. Bergen subverte a retórica aristotélica ao aliar os avanços na área da hipnose a suas obras. Em seu quadro Ciclorama de Táquion, por exemplo, Bergen não somente induz como obriga cada espectador a extrair da tela uma impressão imagética inteiramente pessoal que difere em absoluto daquela obtida por qualquer outro espectador; e vai além: o objeto se apresenta inédito a cada novo olhar de um mesmo indivíduo. Já a canção Altamont Pindorama tem sido alvo de grande polêmica por provocar – nos poucos que até hoje a conheceram – alucinações relacionadas às memórias de seus ouvintes, algo semelhante a um processo de regressão hipnótica de TVP (Terapia de Vidas Passadas) em simulacro.
O arrojo de Hendrik Bergen parece não ter limites. Aparentemente, não conformado em apenas decretar estado de sítio no que conhecíamos por estética da recepção e tornar brincadeira infantil os mais ousados recursos de metalinguagem até hoje utilizados, este fã de Noel Rosa e Soundgarden transita pelos gêneros como quem atravessa a rua. É o caso da escultura Annita no diorama de Johns, cuja transgenia proporciona a seus apreciadores o efeito de uma canção interna à moda de pensamento, o que sabemos só poder ser ouvido por nós mesmos.
A relevância dessa nova maneira de se conceber a arte – para qual a efervescência já se encarregou de criar um rótulo tão-pop-quanto-óbvio-possível: “nüart” – dá por aberta a temporada de discussões sobre os rumos que tomarão todos os setores entremeados neste nicho que se sedimenta imponente e ameaçador a olhos vistos. Surgem questões inevitáveis, agora que a arte se apresenta em um nível sensorial jamais testemunhado: como ficará nosso olhar sobre a arte tradicional? É pertinente considerarmos essa uma deturpada releitura da proposta cubista? Será o fim da reprodutibilidade técnica, já que as obras não se repetem? Como fotografar um quadro com tessitura holográfica em terceira dimensão tátil ou uma escultura que recria sensações e aromas da infância de cada espectador? Que impacto isso pode provocar no mercado?
Há quem acredite existir nas obras de Hendrik Bergen mais do que um aprofundado estudo psicanalítico somado a novos recursos tecnológicos. Algumas correntes mais radicais o acusam de envolver práticas de xamanismo e conhecimento cabalístico no processo da poiesis de seus objetos artísticos, o que explicaria os imprevisíveis resultados “aisthéticos” e (in)consequentemente catárticos. Quem já teve a rara oportunidade de ver o próprio artista diz que Bergen ri de tais afirmações, não por deboche, mas pura surpresa diante da imaginação humana – logo quem. Já alguns críticos aproveitam o momento para destilar seu descaso declarando que o trabalho de Hendrik não faz mais do que dar corpo a tudo que sempre foi senso-comum na discussão artístico-literária; que sua técnica não passa de uma metáfora da forma sobre o próprio conteúdo esgotado da percepção; e que toda arte produzida por Bergen só foi possível depois da descoberta por Salvador Sanz em 2006 da nova cor, ultramá. A impressão deixada por toda essa retaliação é a de que o mesmo entrave político que embargou a descoberta de Sanz há três anos esforça-se agora para recair sobre a arte bergeniana.
O que importa no atual momento é o choque cardíaco aplicado por Hendrik Bergen no marasmo no qual se encontrava a arte contemporânea, em que conviviam em falsa harmonia os defensores imediatistas de uma tal Hipermodernidade e os nostálgicos protetores de uma “tradição canônica”, que por vezes assemelham-se a alguma sociedade secreta antediluviana.
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Publicado por Vinicius.
